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Série sobre identidade indígena recebe destaque em seleção da TV Brasil

Produção "Gente de Verdade" aborda memória e vivências do povo Paiter Suruí, da Amazônia, e terá exibição nacional

22/04/2026 às 21:26
Por: Redação

A série documental Gente de Verdade, protagonizada por indígenas do povo Paiter Suruí da Amazônia, foi uma das produções contempladas pela chamada pública Seleção TV Brasil. O projeto acompanha a trajetória de membros deste povo na preservação da memória e identidade de sua comunidade, situada na Terra Indígena Sete de Setembro, localizada entre os estados de Rondônia e Mato Grosso, onde há pouco mais de cinco décadas ocorreu o primeiro contato dos Paiter Suruí com não indígenas.

 

O projeto foi selecionado entre as obras contratadas pela Empresa Brasil de Comunicação (EBC) com financiamento proveniente do Fundo Setorial do Audiovisual (FSA), dentro do Programa de Apoio ao Desenvolvimento do Audiovisual Brasileiro (Prodav), vinculado ao Ministério da Cultura (MinC) e à Agência Nacional do Cinema (Ancine).

 

Em fevereiro, a EBC divulgou a relação dos 39 projetos contemplados pela Seleção TV Brasil. Ao todo, as produções selecionadas somam um investimento de 109.889.224,78 reais, valor considerado o maior já destinado pelo governo federal ao setor audiovisual voltado à televisão pública no país.

 

A série Gente de Verdade foi escolhida na categoria Sociedade e Cultura, que inclui outras sete produções. O documentário mostra os impactos das transformações sofridas pelo povo Paiter Suruí após o contato com não indígenas, abordando questões como a substituição de práticas tradicionais por igrejas, o abandono de rituais ancestrais e o esquecimento da língua Tupi Mondé entre as gerações mais jovens.

 

O enredo é conduzido por quatro personagens de três gerações diferentes: Ubiratan, Agamenon, Celesty e Kennedy. Eles são acompanhados enquanto buscam resgatar e fortalecer a identidade Suruí diante dos desafios impostos pela expansão da fé cristã, pela urbanização e pelo avanço da tecnologia. A série trata de temas como ancestralidade, pertencimento e as dificuldades em conciliar tradição com modernidade.

 

Composta por oito episódios de 26 minutos cada, a produção oferece uma perspectiva interna sobre a história dos Paiter Suruí, permitindo que os próprios indígenas narrem suas experiências. Um elemento central do roteiro é a descoberta de um acervo visual realizado por um fotógrafo alemão durante o primeiro contato da comunidade com não indígenas, nos anos 1970. Esse material desencadeia um debate sobre memória, espiritualidade e identidade, sobretudo em relação à possibilidade de resgatar imagens de pessoas já falecidas sem ferir crenças religiosas que proíbem até mesmo a menção aos mortos.

 

Antonia Pellegrino, presidente da EBC e responsável por coordenar a Seleção TV Brasil na época em que era diretora de Conteúdo e Programação, afirmou que o projeto teria potencial para ser aprovado em qualquer edital, mas que os responsáveis optaram por inscrevê-lo para exibição em uma emissora pública.

 

“Esse gesto reforça a relevância da comunicação pública para dar visibilidade a vozes historicamente silenciadas. É um projeto potente que posiciona no centro histórias que por muito tempo foram invisibilizadas e que dá protagonismo a quem vive essas experiências. A série amplia o olhar sobre os povos indígenas com sensibilidade e profundidade, a partir da força do audiovisual em provocar reflexão e ampliar a compreensão sobre diferentes realidades”, comenta.


 

Indígenas assumem direção e roteiro em produção audiovisual

 

A direção da série Gente de Verdade é conduzida por Ubiratan Suruí, cineasta pertencente ao próprio povo Paiter Suruí, enquanto o roteiro fica a cargo de Natália Tupi, que também é cineasta e fotógrafa indígena. O projeto valoriza narrativas originadas da vivência direta nos territórios, destacando a importância do olhar indígena sobre suas próprias histórias.

 

Segundo Ubiratan Suruí, a autenticidade e o protagonismo estão entre as principais características da série, resultado do fato de os próprios indígenas serem os responsáveis pela produção.

 

Gente de Verdade nasce do nosso próprio olhar. Por muito tempo, as histórias sobre os povos indígenas foram contadas por outros, de fora. Aqui, não. Somos nós que contamos. Quando a gente coloca nossas próprias narrativas no centro, a gente fortalece nossa autonomia, nossa identidade e mostra a diversidade que existe entre os nossos povos. São histórias reais, de agora, longe dos estereótipos. A gente se apresenta como realmente é: povos vivos, com voz, com pensamento, com futuro — não como personagens do passado.”, ressalta.


 

O diretor destacou ainda a importância de ver uma obra de autoria indígena exibida na TV Brasil, ressaltando que, por ser um canal público de abrangência nacional, o espaço contribui para ampliar o acesso às histórias e experiências dos povos originários.

 

“Ver uma obra indígena sendo exibida na TV Brasil é um avanço muito importante. Por ser um canal público e de alcance nacional, abre espaço para que mais pessoas conheçam nossas histórias. Isso ajuda a criar diálogo, respeito e reconhecimento. Quando a gente ocupa esse espaço, a gente quebra a invisibilidade e faz com que o Brasil escute, de verdade, as vozes dos povos originários”, complementa Suruí.


 

Exposição fotográfica retrata cotidiano e resistência dos Paiter Suruí

 

No ano anterior, o Instituto Moreira Salles (IMS) organizou em São Paulo a mostra "Paiter Suruí, Gente de Verdade", reunindo 800 fotografias realizadas desde a década de 1970, quando as primeiras câmeras chegaram à Terra Indígena Sete de Setembro. A exposição oferece um mergulho nas vivências, costumes, afetos, cotidiano e resistência do povo Paiter Suruí. O acervo da mostra está disponível para acesso online no site do IMS.

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