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Presidentes africanos defendem união e autonomia contra terrorismo

Encontro em Dacar destaca soberania, integração continental e políticas para jovens como resposta à instabilidade e ao avanço do terrorismo.

21/04/2026 às 10:56
Por: Redação

Líderes de países africanos reunidos em Dacar, capital do Senegal, enfatizaram que a soberania nacional e a cooperação entre as nações do continente são essenciais para alcançar paz, estabilidade e segurança. Eles ressaltaram que fortalecer o controle de fronteiras e investir em políticas voltadas para a juventude figuram entre as principais estratégias para superar desafios como o avanço do terrorismo em diversas regiões da África.

 

Durante o 10º Fórum Internacional de Dacar sobre Paz e Segurança na África, realizado nos dias 20 e 21 de abril de 2026, autoridades de 38 países, entre eles 18 das 54 nações africanas, participaram das discussões, além de representantes de organismos internacionais e especialistas. O Brasil esteve representado pela embaixadora no Senegal.

 

Na abertura do evento, o presidente do Senegal, Bassirou Diomaye Faye, analisou o cenário internacional e destacou que o continente africano sofre impactos de crises globais, como disputas comerciais entre potências, barreiras econômicas e desafios derivados das alterações climáticas.

 

“O nosso continente, longe de estar protegido, sofre os efeitos de todas essas crises e ainda precisa enfrentar múltiplas ameaças, como conflitos armados e o terrorismo”, afirmou.


 

O encontro, promovido pelo governo do Senegal desde 2014, contou com a presença de chefes de Estado e integrantes de altos escalões governamentais, além de delegações de países europeus com histórico colonial na África, como Alemanha, Espanha, Portugal e França, que colonizou o Senegal até 1960.

 

A edição de 2026 abordou como tema central as soluções sustentáveis para os desafios de integração, estabilidade e soberania no continente africano.

 

“Esse tema nos convida a uma reflexão profunda sobre o que devemos fazer juntos, com solidariedade, para tirar o continente do ciclo de instabilidade e transformá-lo em um espaço pacífico, integrado, soberano e próspero”, declarou Bassirou Diomaye Faye.


 

O presidente senegalês reforçou a importância de que a agenda de segurança africana seja estabelecida pelos próprios países do continente, sem interferência externa, e destacou o papel da soberania na exploração de recursos naturais, como urânio, petróleo e gás, recentemente descobertos em território senegalês.

 

“Não podemos mais aceitar que nossa agenda de segurança seja definida fora da África, nem que nosso espaço estratégico seja ocupado sem nosso consentimento”, declarou.


 

Ao abordar a gestão dos recursos naturais, Bassirou Diomaye Faye defendeu a extração, transformação e venda desses insumos dentro do território africano, argumentando que eles não devem servir exclusivamente a interesses industriais estrangeiros.

 

Segundo ele, esse modelo é fundamental para a transformação estrutural dos países africanos.

 

Desafios do terrorismo na região do Sahel

 

Bassirou Diomaye Faye dedicou parte do seu discurso à expansão do terrorismo no Sahel, faixa que atravessa o continente africano entre o deserto do Saara e as savanas ao sul. Ele explicou que, a partir da metade da década de 2010, grupos ligados ao Estado Islâmico e à Al-Qaeda passaram a expandir suas operações em direção aos países do Golfo da Guiné, localizados na costa atlântica.

 

De acordo com o Índice de Terrorismo Global de 2026, elaborado pelo Instituto para Economia e Paz, o Sahel concentrou mais de metade das mortes provocadas por atentados terroristas em 2025. A região inclui dez países: Senegal, Gâmbia, Mauritânia, Guiné, Mali, Burkina Faso, Níger, Chade, Camarões e Nigéria. Entre eles, Mali, Burkina Faso e Níger, localizados no Sahel central, destacam-se negativamente, somando cerca de 4.500 ataques ao longo de duas décadas, resultando em 17 mil mortes.

 

Esses três países enfrentam instabilidade institucional, tendo todos registrado pelo menos um golpe militar nos últimos dez anos, além de atuarem contra grupos insurgentes em áreas de fronteira. O relatório também aponta que a ausência de coordenação na segurança de fronteiras tem sido explorada por jihadistas.

 

“Embora a soberania seja importante em crises internas, aqui é necessária uma resposta multidimensional. Devemos trabalhar igualmente para ter um controle efetivo sobre as fronteiras”, afirmou o presidente do Senegal.


 

Ele destacou ainda que ameaças à segurança em qualquer país do Sahel impactam diretamente seus vizinhos, defendendo que medidas unicamente internas não seriam eficazes no combate ao terrorismo.

 

Bassirou Diomaye Faye sugeriu que a resposta ao terrorismo deve incluir ações militares, monitoramento rigoroso das fronteiras e trocas de informações, assim como operações conjuntas entre as forças de defesa e segurança dos países envolvidos.

 

Juventude africana e desafios institucionais

 

O presidente de Serra Leoa, Julius Maada Bio, relacionou os problemas de segurança enfrentados pela África à falta de representação adequada dos Estados junto à população. Ele ressaltou que muitos jovens são atraídos para movimentos violentos devido à ausência de alternativas institucionais, e defendeu que investimentos direcionados à juventude sejam compreendidos não apenas como políticas sociais, mas também como estratégias de segurança nacional.

 

“Extremismo e crime organizado encontram espaço nas falhas de governança e em um crescente e perigoso distanciamento entre cidadãos e o Estado. Grupos extremistas recrutam onde há desespero”, declarou Julius Maada Bio.


 

O líder de Serra Leoa, que participou da guerra civil do país entre 1991 e 2002, destacou as perdas causadas pelo conflito e afirmou que a paz vai além do fim dos combates, sendo caracterizada por condições dignas de vida e confiança no futuro.

 

Ele reforçou que estabilidade, integração e soberania são elementos fundamentais para soluções duradouras em segurança, e destacou que a integração depende da soberania, sendo esta impossível de se sustentar sem estabilidade. Segundo ele, o sistema se desfaz caso qualquer um desses pilares seja retirado.

 

O presidente de Serra Leoa também salientou a importância da autodeterminação dos africanos diante das adversidades atuais.

 

“Devem ser soluções africanas, baseadas na realidade africana, não apenas modelos importados adaptados superficialmente”, afirmou.


 

Ele acrescentou que parcerias internacionais são bem-vindas, desde que respeitem a autonomia dos países africanos, e defendeu que a união entre as nações do continente é essencial para garantir a sobrevivência dos Estados africanos.

 

Integração regional e desenvolvimento econômico

 

O presidente da Mauritânia, Mohamed Cheikh El Ghazouani, apontou que fatores como tensões identitárias, déficits de governança, rupturas institucionais, vulnerabilidades econômicas, impactos das mudanças climáticas e a atuação de grupos armados não estatais desafiam a coesão social africana.

 

Ele defendeu que independência nacional não equivale a isolamento, pois nenhum país consegue sozinho enfrentar os desafios trazidos pela globalização, fragmentação das cadeias de valor e mudanças geopolíticas.

 

Para Mohamed Cheikh El Ghazouani, a integração regional é indispensável à África, pois ela reduz dependências externas, fortalece complementariedades entre as nações e amplia a influência do continente no cenário internacional.

 

O presidente da Mauritânia também defendeu o fortalecimento da Comunidade Econômica dos Estados da África Ocidental (Cedeao), destacando que a facilitação da circulação de bens, serviços e pessoas torna essa organização um instrumento central de transformação econômica regional.

 

Atualmente composta por 12 países e liderada por Julius Maada Bio, a Cedeao enfrenta desafios decorrentes da saída de Mali, Níger e Burkina Faso, que optaram por deixar a comunidade por considerá-la subordinada a interesses externos.

 

O presidente de Serra Leoa afirmou que busca convencer os mais de 400 milhões de habitantes da região sobre a importância de manter a unidade no bloco e de tratar coletivamente as causas que levaram à saída desses países.

 

No fórum, os demais países africanos estiveram presentes apenas por meio de delegações ministeriais. Outras pautas do evento incluíram temas como soberania tecnológica, recursos naturais, transição política, indústria de defesa e integração digital.

 

O repórter viajou a convite do Ministério da Integração Africana, Negócios Estrangeiros e Senegaleses no Estrangeiro.

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