Após mais de duas décadas de acompanhamento em Querência, município do Mato Grosso situado em uma das áreas da Amazônia mais atingidas pelo desmatamento nos últimos anos, um estudo extensivo analisou como a floresta reage ao impacto de queimadas e períodos de seca em regiões sob pressão da atividade agrícola.
O trabalho, iniciado em 2004 e abrangendo uma área total de 150 hectares, teve como objetivo documentar de forma detalhada a flora, fauna e insetos originalmente presentes no local. Para isso, a área foi dividida em três frações de 50 hectares cada: duas delas sofreram queimadas controladas, sendo uma submetida ao fogo anualmente até 2010 e outra a cada três anos; a terceira permanecendo como controle, sem incidência de fogo durante o experimento.
A análise, realizada ao longo de 22 anos, revelou que a chamada tese da savanização — defendida por parte da comunidade científica desde os anos 1990 — não se confirmou nesse cenário. Os pesquisadores constataram que, em vez de ocorrer uma substituição permanente das áreas de floresta por vegetação típica de savana, como gramíneas e arbustos, os espaços afetados pelo fogo e secas voltaram a ser ocupados pelas mesmas espécies de árvores nativas presentes antes das perturbações.
De acordo com Leandro Maracahipes, pesquisador vinculado à Universidade de Yale e apoiado pelo Instituto Serrapilheira, as conclusões do estudo apontam para a notável capacidade de recuperação e para a alta resiliência da floresta amazônica em áreas degradadas. Ele ressalta, contudo, que essa retomada depende de condições específicas, sendo fundamental a interrupção dos incêndios e a manutenção de florestas preservadas nas proximidades dos locais afetados.
“É preciso que você tenha uma fonte de dispersão próxima pra poder recuperar essa área. Porque tem que ter uma matriz de vegetação nativa próxima, animais para poder dispersar essas sementes com o vento. Se não tiver, vai ser mais difícil e mais lento”, diz Macahipes.
Logo após as queimadas, foi observado um empobrecimento na biodiversidade das áreas atingidas. Nas regiões submetidas ao fogo anualmente, houve uma redução de 20,3% na variedade de espécies, ao passo que naquelas queimadas a cada três anos essa queda atingiu 46,2%. Em 2012, o local também sofreu o impacto de uma tempestade de vento, responsável pela morte de 5% das árvores na área de estudo.
No momento seguinte aos distúrbios, os cientistas constataram uma transformação significativa no ambiente, com aumento das gramíneas, especialmente nas bordas da floresta devido à abertura do docel — a cobertura formada pelas copas das árvores. Com o passar do tempo, essa situação foi revertida: o fechamento do docel reduziu a presença de gramíneas para 10% da área, conferindo novamente características predominantemente florestais ao local. O pesquisador destacou que o interior da floresta se recuperou com maior rapidez em relação às bordas, e que a composição original das espécies está gradualmente se reconstituindo.
Apesar das evidências de regeneração, os cientistas alertam que a floresta amazônica não retorna exatamente à sua condição anterior, mantendo uma margem menor de espécies, que pode variar de 31,3% a 50,8% a depender da intensidade dos danos sofridos inicialmente. Maracahipes enfatiza que, mesmo voltando a ocupar as áreas degradadas, a floresta adquire uma nova configuração, com espécies de casca fina e madeira menos densa, tornando-se mais suscetível a futuras ameaças.
“A floresta volta em uma nova condição, não volta com todos aqueles serviços que ela fornecia. Ela volta muito mais vulnerável. As espécies que fazem parte dessa nova composição, elas têm casca fina e densidade da madeira baixa e morrem muito mais facilmente”, explica Maracahipes.
Além da vulnerabilidade provocada pela ação humana, como incêndios, o processo de regeneração também enfrenta desafios impostos pelas mudanças climáticas, em especial as secas cada vez mais intensas. Apesar disso, os pesquisadores destacam que as espécies florestais ainda conseguem manter a hidratação durante a recuperação, mas reforçam a necessidade de restaurar uma quantidade maior de áreas degradadas para garantir o acesso à água.
“Essa região que era conhecida como Arco do Desmatamento, agora tem sido chama de Arco da Restauração, que é essa possibilidade de restaurar aproveitando a capacidade da floresta de se recuperar”, conclui.