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Brasileiros mortos em ataque israelense buscavam pertences no Líbano

Família foi atingida após retornar à cidade natal para buscar roupas e objetos pessoais durante trégua no conflito.

28/04/2026 às 23:19
Por: Redação

A família formada por brasileiros e libaneses que morreu em um bombardeio de Israel no sul do Líbano tinha retornado à antiga residência em Bint Jbel para recolher roupas e itens pessoais quando o local foi atingido. De acordo com relatos, ninguém havia localizado os corpos sob os destroços da casa, que ficou completamente destruída após o ataque.

 

Foram vítimas do bombardeio a brasileira Manal Jaafar, com 47 anos; seu filho Ali Ghassan Nader, de 11 anos; e o pai do menino, o libanês Ghassan Nader, de 57 anos. No início de março, quando teve início uma nova escalada do conflito, eles deixaram o imóvel de maneira emergencial e passaram a viver em Beirute, capital do país, como forma de proteção.

 

Após a declaração de cessar-fogo em 16 de abril, a família decidiu retornar à cidade natal para pegar mais roupas e reunir outros bens antes de voltar novamente à capital. Eles chegaram ao sul do Líbano no sábado, dia 25, com o objetivo de resgatar pertences.

 

O irmão de Ghassan, Bilal Nader, que possui nacionalidade libanesa e brasileira e reside em Foz do Iguaçu (PR), explicou que o irmão pretendia retornar no mesmo dia da viagem, mas acabou dormindo na casa para sair apenas no domingo, 26 de abril, data em que aconteceu o ataque.

 

Segundo Bilal Nader, a família ficou no local mesmo após o amanhecer do dia seguinte ao cessar-fogo, aguardando cerca de uma semana para tentar recolher objetos deixados para trás. Ele relatou que Ghassan estava com o carro ligado e o porta-malas carregado no momento do bombardeio.

 

Outro filho do casal, Kassam Nader, de 21 anos, estudante de computação no Líbano, também foi ferido na explosão, mas já recebeu alta hospitalar em 28 de abril. Além de Kassam, o casal possuía outros dois filhos adultos, com 28 e 26 anos, que trabalham fora do país.

 

Bilal Nader ressaltou que seu irmão não tinha envolvimento político, levando uma vida reservada como agricultor de oliveiras no sul do Líbano e alimentando esperanças de que o conflito chegasse ao fim.

 

"Meu irmão é uma pessoa de bem, não tem ligação com nada, não apoia nenhum partido, é uma pessoa bem reservada, bem sossegada. Inclusive, ele tem muitos amigos aqui, em Foz [do Iguaçu], no Brasil inteiro. Tem amigos no Rio de Janeiro, em Minas Gerais, São Paulo. Ele era bem conhecido aqui", declarou Bilal Nader.


 

O irmão frisou que a área onde vivia a família não vinha sendo palco de conflitos recentes e reunia apenas construções destinadas à população civil.

 

“As cidades mais para frente é onde estavam acontecendo os bombardeios, onde estão roubando as casas. Ao redor da casa dele não tinha nada, só construções civis, com população civil normal”, relatou Bilal Nader.


 

A embaixada de Israel em Brasília foi procurada para comentar o ataque à residência de brasileiros no Líbano; entretanto, até o fechamento da reportagem, não houve resposta por parte do governo israelense.

 

O Líbano abriga a maior comunidade de brasileiros no Oriente Médio, contabilizando 22 mil cidadãos do Brasil em 2023, conforme dados do Ministério das Relações Exteriores. O governo brasileiro condenou os ataques executados durante o período de cessar-fogo.

 

Trajetória familiar e vínculo com o Brasil

A família de Manal Jaafar e Ghassan Nader viveu por mais de quinze anos no Brasil, do ano de 1995 até 2008. Durante este tempo, Manal teve filhos e conquistou a cidadania brasileira. Ghassan, por sua vez, não chegou a adquirir a nacionalidade, alegando falta de tempo devido ao trabalho. Ele atuava como comerciante no ramo de eletroeletrônicos.

 

Ali Farhat, jornalista libanês naturalizado brasileiro que era amigo da família, afirmou que Ghassan era uma pessoa culta, graduada em economia e autora de um livro sobre economia mundial escrito em árabe.

 

“Ele era muito ativo na comunidade libanesa aqui no Brasil. Ele trabalhava como empresário aqui e também como intelectual. Ele estava tentando fazer alguns estudos, algumas pesquisas e depois ele decidiu viajar para o Líbano para viver com a família dele lá”, relatou Farhat.


 

Conflito e violações do cessar-fogo

Apesar do acordo de cessar-fogo firmado no Líbano, há relatos de que as forças de Israel vêm desrespeitando a trégua. O grupo xiita Hezbollah declarou que irá responder às violações da trégua, enquanto o Irã pressiona para que o cessar-fogo na região seja estendido ao território libanês.

 

Segundo informações do governo dos Estados Unidos, Israel teria autorização para atuar contra o Hezbollah apenas em situações de legítima defesa, diante de ataques planejados, iminentes ou em andamento.

 

O governo de Israel manifestou o desejo de ocupar toda a região sul do Líbano até o Rio Litani, que se encontra a cerca de 30 quilômetros da fronteira atual. A intenção seria evitar o retorno da população civil ao local. No último dia antes do cessar-fogo, houve o bombardeio da última ponte sobre o Rio Litani, a Ponte de Qasmiyeh, dificultando a conexão entre as cidades de Tiro e Sidon e isolando o sul do país.

 

O especialista em geopolítica Anwar Assi avaliou que as ações israelenses na região do sul do Líbano têm natureza de expulsão da população, com destruição de escolas, hospitais, prédios públicos e instalações necessárias ao retorno dos civis.

 

“O objetivo principal da guerra é a expulsão das pessoas do Sul do Líbano. Por isso que eles destruíram escolas, hospitais, prédios do governo e todas as unidades que poderiam dar suporte ao retorno dos civis. Eles destruíram justamente para que essas pessoas que retornassem às suas cidades não encontrassem nenhum tipo de apoio”, analisou Assi.


 

Em contrapartida, Israel afirma que procura criar uma área de segurança para proteger seu território de ataques realizados pelo Hezbollah.

 

Contexto do confronto no Oriente Médio

A escalada atual do conflito entre Israel e Líbano teve início em outubro de 2023, depois que o Hezbollah lançou ataques contra o norte de Israel em solidariedade aos palestinos devido aos massacres registrados na Faixa de Gaza.

 

Em novembro de 2024, foi anunciado um acordo de cessar-fogo entre o Hezbollah e o governo israelense. Contudo, segundo relatos, os ataques israelenses continuaram em solo libanês, contrariando o pacto.

 

A ofensiva contra o Irã levou o Hezbollah a retomar ataques contra Israel em 2 de março, em resposta às violações da trégua e também como reação à morte do líder supremo iraniano, Ali Khamenei.

 

No dia 8 de abril, foi divulgado um novo cessar-fogo relacionado à guerra no Irã, porém os bombardeios israelenses continuaram no território libanês, mesmo após acordo mediado pelo Paquistão.

 

Histórico dos confrontos entre Israel e Hezbollah

A origem do conflito entre o Estado de Israel e o Hezbollah remonta à década de 1980, quando a milícia xiita foi formada como reação à invasão e à ocupação israelense do Líbano, destinada a perseguir grupos palestinos que buscavam refúgio no país vizinho.

 

O Hezbollah conseguiu expulsar as forças israelenses do território libanês no ano 2000. A partir daí, passou a atuar também como partido político, conquistando assentos no Parlamento e participando dos governos do país.

 

O Líbano foi novamente alvo de ataques israelenses nos anos de 2006, 2009 e 2011, em diferentes episódios do conflito.

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