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Caminhos da Reportagem explora o boom das canetas emagrecedoras

Abordando os benefícios no tratamento de diabetes e obesidade, a reportagem da TV Brasil também discute a "economia moral da magreza", barreiras de acesso e irregularidades.

27/04/2026 às 12:42
Por: Redação

A edição intitulada “O boom das canetas emagrecedoras” será apresentada pelo programa Caminhos da Reportagem na próxima segunda-feira, dia 27. A atração da TV Brasil, emissora pública da Empresa Brasil de Comunicação (EBC), vai ao ar às 23h e se aprofunda no uso generalizado desses medicamentos como auxílio no processo de perda de peso.

 

As chamadas canetas para emagrecer são objeto de um intenso debate global sobre saúde. A primeira tecnologia desse tipo chegou ao Brasil em 2017, e desde então, diversas inovações foram desenvolvidas e comercializadas no país, voltadas para o tratamento de condições como diabetes e obesidade. Embora esses medicamentos potencializem o tratamento de duas doenças crônicas, eles também reforçam um conceito que especialistas denominam de “economia moral da magreza”.

 

O médico endocrinologista Neuton Dornelas, que preside a Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia, destaca a preferência pela terminologia “medicamentos injetáveis para tratamento da obesidade e de diabetes”.

 

“Estamos falando de medicamentos que realmente trouxeram uma revolução no tratamento dessas duas doenças, com resultados na perda de peso e na diminuição de risco cardiovascular”, disse o especialista.

 

“São medicamentos indicados para quem vive com obesidade ou com diabetes ou com as duas coisas juntas. São critérios técnicos que devem ser avaliados sempre por um profissional de saúde”, recomenda.

 

Um exemplo é Francenobre Costa de Sousa, conhecida como Nobi por amigos e familiares. Aos 58 anos, ela convive com diabetes tipo 2, doença diagnosticada quando tinha 45 anos, após um desmaio em um ônibus que a levou ao hospital. Apesar de realizar tratamento com insulina, o controle do diabetes de Nobi permanece desafiador.

 

Alexandra Padilha, médica de família que acompanha Nobi na Unidade Básica de Saúde (UBS), aponta que o tratamento com medicamentos injetáveis poderia trazer grandes benefícios à sua paciente. Conforme Padilha, essa abordagem poderia até mesmo reverter a necessidade de insulina no caso de Nobi, que apresenta sobrepeso e teria a chance de retornar ao seu Índice de Massa Corporal (IMC) normal.

 

Para que o tratamento com esses medicamentos supere as barreiras da desigualdade social, especialistas indicam que alguns fatores são cruciais. Entre eles, a expiração da patente dos princípios ativos utilizados e a viabilidade da produção nacional são considerados decisivos.

 

Em 20 de março deste ano, a patente da semaglutida, substância presente em medicamentos como Ozempic e Wegovy, expirou. A queda dessa patente é um evento com impacto significativo no mercado, pois abre espaço para a concorrência entre fabricantes.

 

“Mas é preciso pensar que, muito embora vá baratear, não é um amplo e pleno barateamento. A produção da substância, do insumo farmacêutico ativo, é uma produção mais complexa do que os chamados medicamentos genéricos”, explica Henderson Fust, advogado especialista em Bioética e Regulação da Saúde.

 

O Ministério da Saúde, por meio de uma nota oficial, informou ter solicitado à Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) que priorize o registro de medicamentos contendo os princípios ativos semaglutida e liraglutida, com o objetivo de impulsionar a futura produção desses fármacos no Brasil. A pasta esclareceu que, em 2025, a Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS (Conitec), órgão responsável por assessorar as decisões do Ministério da Saúde, emitiu um parecer desfavorável à incorporação da semaglutida e da liraglutida. A justificativa foi o impacto orçamentário, que ultrapassaria 8 bilhões de reais, valor que representa o dobro do orçamento anual destinado ao Programa Saúde Popular.

 

Debate sobre a Magreza e Acesso

 

Enquanto as discussões sobre a ampliação do acesso a novos tratamentos para diabetes e obesidade na rede pública de saúde progridem, o Brasil observa uma “popularização” das canetas emagrecedoras. Essas tecnologias acentuaram o que pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) definem como a “economia moral da magreza”. Fernanda Baeza Scagliuzi, professora das Faculdades de Saúde Pública e de Medicina da USP, argumenta que um corpo magro é frequentemente associado a uma moralidade virtuosa, sugerindo que “a pessoa se esforçou para chegar até lá”.

 

“Um corpo gordo é visto como o de alguém que é preguiçoso, que é relaxado, que não tem força de vontade, não tem disciplina e outros estereótipos também muito perigosos. Agora, mesmo as pessoas que não são gordas sofrem a pressão estética pela magreza”, diz a pesquisadora, que estuda também os efeitos colaterais do uso dos medicamentos injetáveis.

 

Tratamento e Estilo de Vida

 

A dentista Bárbara Lopes, por exemplo, já havia utilizado canetas emagrecedoras, mas experimentou um reganho de peso. Atualmente, ela enfrenta os desafios da perimenopausa, pré-diabetes e ansiedade, e iniciou um novo tratamento. Segundo ela, “Eu mudava alimentação, buscava fazer um pouco de exercício e não via aquele quadro mudar”.

 

Sociedades médicas enfatizam que o tratamento farmacológico não deve ser aplicado de forma isolada. É fundamental que seja sempre combinado com mudanças no estilo de vida, incluindo aconselhamento nutricional adequado e estímulo à prática regular de atividade física. A médica geriatra Marcela Pandolfi reitera que a medicação não é a única solução. Ela destaca que “O estilo de vida para esse paciente vai ser fundamental. É isso que vai fazer com que ele consiga pelo menos equilibrar, fazer com que ele não volte a ganhar todo o peso que perdeu no processo do tratamento”.

 

O crescente aumento na oferta e na demanda por canetas emagrecedoras tem sido acompanhado por uma série de irregularidades. Essas infrações são observadas em diversas etapas, como a importação, manipulação, prescrição e dispensação dos medicamentos. Em resposta, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) intensificou a fiscalização desses produtos. Paralelamente, forças de segurança e a Receita Federal estão conduzindo investigações sobre crimes contra a saúde pública e a economia nacional relacionados a esses fármacos.

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