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Brasília inspira artistas a expressar identidade sem uso de palavras

Mímicos, músicos, estilistas e artistas visuais encontram novas formas de representar a capital federal

21/04/2026 às 14:37
Por: Redação

Há 66 anos, Juscelino Kubitschek destacou, em seu primeiro discurso voltado à nova capital, a complexidade de verbalizar sentimentos e pensamentos diante da importância daquele momento para a vida pública. Décadas depois, essa dificuldade de traduzir Brasília em palavras segue sendo enfrentada por criadores que buscam, por meio de diversas linguagens artísticas, captar a essência de uma cidade marcada por sua pluralidade e identidade única.

 

Entre esses artistas está o mímico Miqueias Paz, de 62 anos, que utiliza os movimentos corporais e o silêncio para transmitir as nuances do cotidiano, das desigualdades sociais, do esforço de migrantes e da dinâmica de uma metrópole em crescimento. Tendo chegado à cidade ainda criança, aos cinco anos, com a família, foi na adolescência que descobriu o teatro, especialmente o de cunho social, retratando vivências de pessoas vindas de áreas periféricas ou de outros estados para a capital.

 

Miqueias recorda que, ao apresentar espetáculos como “Sonho de um retirante” e “História do homem”, ambos na década de 1980, a plateia inicial era composta por agentes do regime militar, que atuavam como censores nas apresentações. A trajetória artística teve início em Taguatinga, a partir dos 16 anos, quando companhias teatrais, como o H-Papanatas, visitavam Brasília, então uma cidade jovem. O artista passou a levar suas performances do palco para as ruas, alcançando ocupações e levando debates sobre direitos, sempre sem recorrer à linguagem verbal, mas recorrendo ao olhar e à expressão corporal.

 

Miqueias relata que a atuação física o tornou alvo de microviolências, incluindo abordagens recorrentes de policiais. “Eu já começava a fazer mímica intuitivamente a partir das minhas histórias sociais: as coisas que eu vivia, que eu sentia, o ônibus apertado, a falta de grana. Esse passou a ser um eixo do meu trabalho”, afirma.


 

Em 1984, o artista ganhou reconhecimento ao simbolizar o fim da ditadura com o gesto de um coração na rampa do Congresso Nacional. A partir desse momento, passou a ter maior visibilidade junto a movimentos sociais e a ser convidado por sindicatos. Atualmente, dedica-se à manutenção do Mimo, um espaço teatral localizado na comunidade 26 de setembro, voltado para a acolhida de artistas ambulantes do Distrito Federal.

 

Novo ritmo embala a capital inventada

 

A busca por uma identidade musical própria para Brasília levou o pernambucano Tico Magalhães a criar, junto ao grupo “Seu Estrelo e o Fuá do Terreiro”, o ritmo conhecido como samba pisado. Inspirado pelo impacto que teve ao se deparar com o Cerrado e com a história da cidade, Magalhães idealizou uma tradição musical inventada especialmente para o contexto singular da capital federal, compondo histórias, personagens e festividades inéditos.

 

De acordo com o criador do grupo, a concepção do samba pisado partiu da necessidade de criar algo inédito, com pulsação, batida e mitologia próprias. Ele relata que a sonoridade mistura referências do cavalo marinho nordestino, do maracatu nação, de baque solto e baque virado, além de incorporar elementos musicais de diversos outros ritmos brasileiros. Magalhães sublinha que Brasília foi erguida em um território marcado pela confluência de diferentes povos indígenas, sendo uma terra carregada de memórias e encantamentos. Ele define a cidade como um sonho coletivo, concebida, planejada e inventada.

 

“Quando você junta gente de muito lugar, a cidade começa a apresentar suas próprias tradições. O Seu Estrelo carrega a junção de tanta gente. A cidade inventa a gente e a gente inventa a cidade”.


 

Magalhães destaca que o grupo não apenas reflete características da capital, mas também contribui para a formação de novas tradições locais. Para ele, Brasília se configura como uma pequena diáspora do Brasil, resultado do encontro de pessoas de múltiplas origens.

 

Moda inspirada por linhas e formas do urbanismo

 

A arquitetura de Brasília serve de inspiração para os estilistas Mackenzo, de 27 anos, nascido em Samambaia, e Felipe Manzoli, de 29, natural de Planaltina. Ambos cresceram em regiões administrativas periféricas e hoje transformam elementos arquitetônicos da cidade em peças de vestuário. Felipe aprendeu a costurar com a avó aos 10 anos, enquanto Mackenzo, também músico, arriscava-se em desenhos de roupas que tinham como referência as paisagens observadas das janelas de ônibus.

 

Mackenzo relata que tias baianas da família trabalharam diretamente com Juscelino Kubitschek durante a construção da cidade, fator que reforçou sua ligação afetiva com a arquitetura local. O estilista defende que criar uma peça de roupa requer conhecimentos semelhantes aos da arquitetura, considerando tanto linhas retas quanto curvas, a exemplo do corpo humano, que serve de base para a "engenharia" das peças. Ele define Brasília como portadora de uma arquitetura que vai além do concreto, adquirindo contornos quase míticos.

 

Ambos consideram que seu trabalho é uma homenagem à trajetória de suas famílias. Eles afirmam que, ao desenvolver coleções inspiradas na arquitetura de Brasília, são motivados pelo sonho grandioso de construção da cidade, mas reconhecem a dureza da realidade enfrentada por aqueles que ergueram esse projeto.

 

Para os estilistas, os vestidos confeccionados remetem às memórias dos símbolos democráticos da capital, ao centro das decisões políticas, bem como aos espaços de manifestação cultural e de protestos. Eles descrevem o processo criativo como metódico e dramático, buscando constantemente maneiras de transformar referências visuais em moda.

 

Geometria e vivências no processo criativo

 

Nara Resende, estilista de 54 anos e arquiteta por formação, aponta que as formas simples e a geometria sempre marcaram sua trajetória criativa. Ela afirma que estar atualmente em Brasília, conduzindo sua marca própria, reforça o quanto seu repertório foi construído sobre bases estruturais inspiradas na cidade.

 

De acordo com Nara, Brasília respira arte, e o contraste entre a natureza e o brutalismo das edificações exerce influência direta em sua inspiração. A estilista revela que frequentemente encontra motivação nas ruas, onde a vida urbana se manifesta intensamente com o movimento e a circulação das pessoas.

 

Cores, linhas e abstração no universo visual

 

A artista visual Isabella Stephan, de 41 anos, que atua tanto na pintura em telas quanto na estamparia, busca inspiração nas cores do cotidiano de Brasília para retratar a “alma da cidade”. Suas obras transitam entre o figurativo e o abstrato, priorizando a exaltação da alegria como tema central.

 

Inicialmente dedicada à produção de quadros, que posteriormente foram vendidos, Isabella decidiu transferir as pinturas para o universo das roupas. Ela descreve Brasília como uma cidade dominada pelo branco e pelo concreto de sua arquitetura, repleta de linhas marcantes. Por meio de suas criações, a artista propõe uma releitura da realidade local ao incorporar o multicolorido do movimento e da alegria do povo brasiliense em suas peças.

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