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Unesco aponta impacto dos seus sítios protegidos para saúde do planeta

Relatório aponta que áreas sob proteção da Unesco preservam biodiversidade, culturas e geram 10% do PIB global

21/04/2026 às 17:22
Por: Redação

Um novo relatório divulgado pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) em Paris nesta terça-feira (21) destaca que áreas sob sua proteção ao redor do mundo desempenham papel decisivo tanto para a preservação ambiental quanto para o bem-estar humano.

 

O estudo reúne, pela primeira vez, uma análise conjunta de todas as categorias da Unesco relacionadas a sítios do Patrimônio Mundial, Reservas da Biosfera e Geoparques Mundiais. No total, são mais de 2.260 áreas protegidas, somando mais de 13 milhões de quilômetros quadrados, o que supera a extensão territorial combinada da China e da Índia.

 

No Brasil, dois exemplos de áreas protegidas pela Unesco se destacam: o Parque Nacional dos Lençóis Maranhenses, incluído na lista do Patrimônio Mundial durante a 46ª sessão do Comitê do Patrimônio Mundial, realizada em Nova Délhi em julho de 2024; e o Parque Nacional do Iguaçu, registrado pela entidade em 1986.

 

De acordo com a Unesco, esses territórios são responsáveis por preservar 60% das espécies mapeadas mundialmente, sendo que cerca de 40% delas não existem em nenhum outro local do planeta. A entidade calcula que os sítios sob sua proteção armazenam aproximadamente 240 gigatoneladas de carbono — quantidade equivalente a quase vinte anos das emissões globais atuais.

 

Segundo a Unesco, apenas as florestas dessas áreas respondem anualmente por cerca de 15% do carbono absorvido por todas as florestas do mundo. Cada gigatonelada corresponde a um bilhão de toneladas.

 

Conservação da biodiversidade em território brasileiro

No contexto nacional, o Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima informa que o Parque Nacional dos Lençóis Maranhenses abriga quatro espécies em risco: guará (Eudocimus ruber), lontra-neotropical (Lontra longicaudis), gato-do-mato (Leopardus tigrinus) e peixe-boi-marinho (Trichechus manatus). Nessa área são encontradas cerca de 133 espécies de plantas, 112 de aves e pelo menos 42 tipos de répteis.

 

O Parque Nacional do Iguaçu, famoso por suas 275 quedas d'água situadas na fronteira com a Argentina, também integra a lista de Patrimônio Mundial desde 1986. A Unesco ressalta que a biodiversidade nessa região inclui mais de 2.000 espécies de plantas e 400 de aves, além de até 80 espécies de mamíferos e inúmeras variedades de invertebrados.

 

Situação estável onde há proteção contínua

O relatório aponta que, embora a população global de animais selvagens tenha caído 73% desde 1970, essa diminuição não se repete na mesma intensidade em áreas protegidas pela Unesco, onde as populações permanecem relativamente estáveis. Aproximadamente um quarto desses sítios se sobrepõe a territórios ocupados por povos indígenas, onde foram catalogadas mais de mil línguas.

 

Além disso, as comunidades que vivem nesses espaços somam quase 900 milhões de pessoas, correspondendo a cerca de 10% da população mundial. Em regiões da África, Caribe e América Latina, esse percentual se aproxima de 50% dos territórios abrangidos pelos sítios protegidos.

 

O levantamento indica que aproximadamente 10% do Produto Interno Bruto (PIB) global provém dessas áreas e das suas adjacências, evidenciando sua relevância econômica para o desenvolvimento sustentável.

 

Desafios ambientais crescentes

A Unesco alerta para o aumento das pressões ambientais nesses territórios. O relatório informa que quase 90% dos locais protegidos enfrentam atualmente altos níveis de estresse ambiental. Na última década, riscos associados às mudanças do clima cresceram 40%.

 

As projeções indicam que até 2050, mais de um em cada quatro desses sítios pode atingir pontos de ruptura com consequências irreversíveis. Entre os riscos identificados estão o desaparecimento de geleiras, colapso de recifes de coral, deslocamento de espécies, agravamento do estresse hídrico e a conversão de florestas de sumidouros para fontes de carbono.

 

Potencial para políticas climáticas e proteção

O documento ressalta que, apesar de 80% dos planos nacionais sobre biodiversidade incluírem os sítios da Unesco, apenas 5% dos planos climáticos nacionais contemplam essas áreas. O relatório recomenda ampliar a integração desses territórios em políticas de enfrentamento às mudanças climáticas, além de fortalecer ações orientadas por quatro pilares: restauração de ecossistemas para garantir resiliência, desenvolvimento sustentável através de cooperação internacional, maior envolvimento dos sítios da Unesco em estratégias globais para o clima e adoção de uma governança mais inclusiva que envolva povos indígenas e comunidades locais.

 

De acordo com o diretor-geral da Unesco, Khaled El-Enany, os sítios sob proteção da instituição oferecem benefícios tangíveis tanto para o meio ambiente quanto para a sociedade:

 

“Nesses territórios, as comunidades prosperam, o patrimônio da humanidade perdura e a biodiversidade é preservada, enquanto se degrada em outros locais. O relatório mensura o valor global e as contribuições desses sítios e revela o que podemos perder se eles não forem priorizados”.


 

El-Enany classifica o relatório como um chamado urgente para que aumente o reconhecimento dos sítios da Unesco como ativos fundamentais no combate às mudanças climáticas e à perda de biodiversidade. Segundo ele, é necessário investir imediatamente na proteção de ecossistemas, culturas e modos de vida para garantir o futuro das próximas gerações.

 

Prosperidade conjunta entre pessoas e natureza

A Unesco destaca que a convivência sustentável entre populações humanas e a natureza nessas áreas permite resultados positivos, como a recuperação de espécies ameaçadas, mesmo em regiões afetadas por conflitos armados, a exemplo dos gorilas-das-montanhas.

 

O relatório produzido em parceria com mais de 20 instituições de pesquisa internacionais conclui que iniciativas implementadas atualmente podem reduzir significativamente riscos futuros. O texto esclarece que, para cada grau Celsius de aquecimento global evitado, o número de sítios expostos a grandes perturbações até o final do século pode ser reduzido pela metade.

 

Na avaliação da Unesco, a defesa dessas áreas não representa apenas uma questão ambiental, mas também estratégica para o desenvolvimento econômico e social sustentável do planeta.

 

“Investir na sua proteção hoje significa salvaguardar, para as gerações futuras, ecossistemas insubstituíveis, culturas vivas e os meios de subsistência de centenas de milhões de pessoas”, conclui o documento.


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