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Projeto analisa origem de tartarugas marinhas em Arraial do Cabo

Ação científica busca identificar procedência e monitorar estado de saúde das tartarugas marinhas que vivem na região fluminense.

21/04/2026 às 16:20
Por: Redação

Em um dia de mar tranquilo e céu limpo, mergulhadores a bordo de um caiaque adentram o mar da Praia do Pontal, situada dentro da Reserva Extrativista Marinha do Arraial do Cabo, na Região dos Lagos, no estado do Rio de Janeiro. A cerca de 200 metros da faixa de areia, um mergulhador se aproxima da água e retorna em poucos minutos com uma tartaruga marinha. Logo depois, outra tartaruga é capturada no mesmo local e da mesma forma.

 

A ação chama a atenção de pescadores e banhistas presentes, que acompanham a movimentação com curiosidade. Essa atividade, ao contrário do que se possa supor, não tem caráter predatório. Trata-se de um procedimento de acompanhamento do estado de saúde desses animais, realizado pelo Projeto Costão Rochoso, iniciativa conduzida pela Fundação Educacional Ciência e Desenvolvimento, organização não governamental. O intuito do projeto é reunir evidências científicas para subsidiar medidas de preservação e recuperação dos costões, ambientes de transição entre o mar e o continente.

 

O Projeto Costão Rochoso é realizado com apoio da Petrobras e enfrenta o desafio de identificar de quais regiões se originam as tartarugas que habitam as águas de Arraial do Cabo, considerado o ponto do litoral brasileiro com a maior concentração de tartarugas-verdes em áreas de alimentação.

 

A bióloga Juliana Fonseca, uma das fundadoras do projeto, relata que é possível encontrar, em Arraial do Cabo, representantes das cinco espécies de tartarugas marinhas presentes no território nacional.

 

Procedimentos de coleta e análise

Após a captura realizada pelos mergulhadores, as tartarugas são levadas cuidadosamente até a faixa de areia. Segundo a bióloga Juliana Fonseca, os animais passam por uma série de exames, incluindo pesagem, medição e coleta de amostras de tecido, processo semelhante a uma biópsia, com o objetivo de identificar a origem de cada indivíduo. Ela explica que, apesar da elevada quantidade de tartarugas na região, ainda não se sabe com precisão onde elas nasceram.

 

“Apesar de ter muitas tartarugas aqui em Arraial, é a área com maior densidade de tartarugas-verdes do Brasil, a gente não sabe onde elas nasceram. Então é isso que a gente está tentando entender agora.”

 

De acordo com a explicação de Juliana Fonseca, quando se determina a origem das tartarugas, torna-se possível compreender quais estoques populacionais dependem da área de Arraial do Cabo. Esse conhecimento permite entender melhor a conexão existente entre as áreas de desova e as áreas de alimentação utilizadas por essas espécies.

 

A expectativa de vida das tartarugas-verdes é de aproximadamente 75 anos. Dados do projeto indicam que esses animais permanecem, em média, dez anos nas águas de Arraial do Cabo, podendo algumas permanecer até 25 anos antes de retornarem ao local de nascimento para a reprodução. Geralmente, as tartarugas chegam à costa ainda pequenas e se desenvolvem no litoral fluminense.

 

“São juvenis, recém-chegadas na costa. Depois que elas nascem, têm uma fase oceânica que dura, pelo menos, cinco anos. Então, com cerca de 25 centímetros, voltam para a costa. Em Arraial do Cabo, elas crescem e se desenvolvem muito bem, ou seja, engordam aqui com a oferta de alimentos”, descreve.

 

Monitoramento, identificação e genética

O acompanhamento realizado pelo projeto abrange tanto a tartaruga-verde quanto a tartaruga-pente, monitoradas em três praias de Arraial do Cabo: Praia dos Anjos, Praia Grande e Praia do Pontal, além da Ilha de Cabo Frio, todas localizadas dentro da reserva marinha. Os procedimentos incluem medições detalhadas do casco, nadadeiras, rabo e até unhas das tartarugas.

 

“É um monitoramento para entender como a saúde das tartarugas marinhas está”, diz Juliana.

 

Além das medições, o projeto faz uso de fotografias e softwares de identificação para reconhecer individualmente cada animal. Conforme explica a bióloga, a identificação é feita por meio de análise fotográfica da cabeça da tartaruga, pois as placas presentes nessa região possuem formatos e tamanhos distintos em cada animal, o que funciona como uma espécie de impressão digital.

 

Desde o início do monitoramento, em 2018, cerca de 500 tartarugas já foram catalogadas. Dentre elas, 80 passaram pela coleta de material genético (DNA), que possibilitará determinar sua origem. As análises genéticas contam com a colaboração da Universidade Federal Fluminense (UFF) e a previsão é que os resultados dessas análises sejam divulgados em até seis meses.

 

Estudo sobre interação humana e proteção

Outro objetivo do Projeto Costão Rochoso é avaliar a distância mínima de aproximação que as tartarugas toleram em relação à presença humana.

 

“As tartarugas são muito carismáticas, todo mundo quer observar. Por conta disso, infelizmente, a gente tem muitos relatos de assédio, de captura, de pegar a tartaruga e tirar de dentro da água, isso é um estresse muito grande para esses animais”, constata a mergulhadora.

 

Para determinar esse limite, o projeto realiza aproximações simuladas, observando o momento em que a tartaruga altera seu comportamento em resposta à presença do pesquisador. A partir dessas observações, será possível estabelecer uma média da distância mínima suportada por esses animais.

 

Com base nas informações obtidas, o projeto pretende elaborar uma cartilha de boas práticas para observação de tartarugas marinhas, voltada ao turismo não apenas em Arraial do Cabo, mas também em outras regiões do país e internacionalmente.

 

Durante as atividades de pesagem, medição e coleta de tecidos, é comum que banhistas, incluindo crianças, se aproximem para observar. Em uma dessas ocasiões, um turista questiona se o animal estaria doente.

 

Os integrantes do projeto esclarecem ao público que a finalidade das ações é exclusivamente a preservação dos animais. Próximo ao local onde ocorrem os procedimentos, no calçadão da praia, uma placa indica claramente a proibição de tocar nos animais marinhos.

 

Segundo a bióloga e pesquisadora Isabella Ferreira, para capturar as tartarugas é necessário possuir formação específica, como graduação em veterinária, biologia ou oceanografia. Também são exigidas autorizações do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), órgão do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima, e do Projeto Tamar, reconhecido internacionalmente por suas ações de conservação marinha desde 1980.

 

Isabella Ferreira ressalta que todas as ações, desde a captura até a marcação e a realização de fotografias, dependem de autorizações prévias. Cada vez que o grupo retorna ao local, notificam os guardas ambientais sobre as atividades, apresentando as autorizações oficiais necessárias.

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