Pelo menos 40 dos 62 empresários citados no relatório final da Comissão Nacional da Verdade (CNV) como apoiadores do regime militar brasileiro foram identificados como descendentes diretos de famílias que possuíam escravos. Essa constatação é resultado de um levantamento realizado a partir de pesquisas genealógicas que envolveram a análise de certidões de nascimento, registros de óbito, livros de batismo e outros documentos disponíveis em bancos de dados como o Family Search, mantido pela Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias.
O capítulo do relatório intitulado “Civis que Colaboraram com a Ditadura” detalha as formas de apoio financeiro e estrutural prestadas por empresas ao regime militar. Entre os nomes identificados, constam membros das famílias Guinle de Paula Machado, que já controlaram o Porto de Santos, e Batista Figueiredo, cujo sobrenome está associado tanto ao último presidente militar do país quanto ao vice-presidente da Bolsa de Mercadorias de São Paulo. Também figuram na lista a família Beltrão, de Pernambuco, com nomes como Hélio Beltrão, que foi ministro do Planejamento no governo Costa e Silva e executivo do Grupo Ultra, além da família Vidigal, controladora do Banco Mercantil e da Cobrasma, a Companhia Brasileira de Material Ferroviário.
De acordo com Ricardo Oliveira, coordenador do Núcleo de Estudos Paranaenses e especialista em genealogia do poder, a permanência de grupos familiares tradicionais nas esferas de influência nacional remonta ao período colonial. “Quando a gente volta algumas gerações, às vezes um avô ou bisavô, de quem nasceu em 1950, você já está no senhoriato escravista das suas regiões”, relatou.
O estudo mencionado foi realizado para o episódio “Como Nossos Pais”, da segunda temporada do podcast “Perdas e Danos”, dedicado a investigar as relações entre empresas e o regime militar.
Edson Teles, professor de filosofia política da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e coordenador do Centro de Antropologia e Arqueologia Forense (CAAF), afirma que o modelo econômico da ditadura se baseia essencialmente na lógica da extração, herança da tradição escravista nacional.
“Extrair é o verbo fundamental do modelo econômico da ditadura. Extrair como ação fundamental e, por muitas vezes, quase que exclusiva.”
Teles ressalta ainda que a exploração não se restringe aos recursos naturais, mas inclui os próprios trabalhadores, frequentemente submetidos a condições degradantes e violações de direitos, caracterizando situações análogas à escravidão.
Conforme relatado pelo professor, a relação entre empresas e regime militar se manifestava principalmente pela repressão à organização dos trabalhadores. Logo após o golpe de 1964, cerca de 20 mil pessoas foram presas em apenas um mês, sendo a maioria sindicalistas.
“A relação mais íntima entre empresas e ditadura se deu justamente no ataque à organização dos trabalhadores. Logo que se deu o golpe, no mês de abril de 1964, 20 mil pessoas foram presas em um mês. É muita coisa. A grande maioria, trabalhadores sindicalizados”, lembra.
O professor Marco Antônio Rocha, do Instituto de Economia da Unicamp, explica que, dois anos após o golpe, o poder de compra do salário mínimo no Brasil caiu para metade do valor anterior, resultado de mudanças na política de indexação salarial em meio a uma inflação elevada.
Dados do IBGE mostram que, entre 1960 e 1972, a fatia da renda nacional concentrada nos 5% mais ricos subiu de 28% para quase 40%, evidenciando o aumento da desigualdade no período.
O estudo também evidencia a dificuldade de ascensão social no Brasil. Segundo relatório da OCDE, uma pessoa nascida em situação de pobreza no país necessita de nove gerações, o equivalente a aproximadamente 300 anos, para alcançar a classe média – um dos índices mais altos de imobilidade social do mundo, junto com Colômbia e África do Sul.
“Para entender o Brasil, para entender a nossa grande desigualdade social, para entender a violência simbólica, social, política e real, a gente precisa entender essas famílias”, avalia Ricardo Oliveira.
Para ilustrar a dinâmica de manutenção das desigualdades, a reportagem analisou o histórico da família Bueno Vidigal. Foram observados três critérios para a escolha: grande influência política e econômica durante a ditadura militar, atuação em múltiplos setores como indústria, serviços e setor financeiro, e participação ativa no apoio ao regime, desde o golpe até o financiamento de práticas de repressão.
No início do século XX, Gastão Vidigal fundou a Cobrasma e o Banco Mercantil. A administração da Cobrasma passou para seu filho e, posteriormente, para o neto, Luís Eulálio Bueno Vidigal e Luís Eulálio Bueno Vidigal Filho. O Banco Mercantil foi presidido por Gastão Eduardo de Bueno Vidigal até seu falecimento em 2001, quando a instituição foi vendida para o Bradesco.
De acordo com a historiadora e professora da Unifesp, Cláudia Moraes de Souza, registros do Ministério do Trabalho apontam que a Cobrasma apresentava condições laborais consideradas análogas à escravidão, com deficiências em sanitários, ausência de refeitório, falta de equipamentos de segurança e até de água potável para os funcionários.
“Não havia sanitários suficientes para o número de trabalhadores, não havia refeitório, o trabalhador, na hora do almoço, saía para a calçada e almoçava com a marmita no chão. Não havia material de segurança, água filtrada ou pelo menos água, para se beber durante o expediente. Então, questões mínimas, ligadas à higiene e à segurança do trabalhador”, relata a professora.
Foi nesse contexto que, em 1968, a fábrica foi palco de um dos maiores movimentos operários do país durante a ditadura militar: a greve de Osasco, que culminou na prisão de aproximadamente 400 trabalhadores após intervenção do Exército dentro das instalações da Cobrasma.
“É na greve que a gente enxerga claramente, os empresários chamando Exército brasileiro para atuar como repressor dentro da fábrica,” ressalta Cláudia.
A repressão à greve é apontada como um dos fatores que motivaram a publicação do Ato Institucional 5 (AI-5), cinco meses depois, que resultou no fechamento do Congresso Nacional, cassação de mandatos parlamentares, censura à imprensa e suspensão do direito de habeas corpus.
A Operação Bandeirantes (Oban), criada após o AI-5 e considerada o embrião do sistema DOI-CODI de repressão, foi sustentada financeiramente por empresas nacionais e multinacionais. Entre os sócios financiadores estava o Banco Mercantil, sob comando de Gastão Eduardo de Bueno Vidigal.
O jornalista Ivan Seixas, que foi preso e torturado com seu pai no DOI-CODI de São Paulo aos 16 anos, revelou que opositores do regime tinham preços estipulados para suas capturas, com valores que poderiam chegar a até 1,5 milhão de dólares para figuras como Carlos Lamarca, e que ele próprio presenciou carcereiros sendo recompensados financeiramente por prisões de adversários da ditadura.
“Fizeram uma parceria com o empresariado para fazer uma caixinha de premiação. Cada um que era capturado tinha um valor a cabeça. O Capitão Carlos Lamarca, quando esteve na minha casa, a cabeça dele valia 750 mil dólares. Um ano depois, quando foi assassinado, valia 1,5 milhão de dólares.”
A família Bueno Vidigal também liderou o Grupo Permanente de Mobilização Industrial (GPMI), responsável por adaptar indústrias à produção de equipamentos militares, e a Cobrasma foi acusada de blindar carros da Polícia Militar para emprego em ações contra manifestações populares.
Em retorno ao apoio ao regime, empresas como a Cobrasma recebiam incentivos fiscais, contratos públicos e empréstimos expressivos, chegando a um faturamento anual de 470 milhões de dólares no auge. Os benefícios financeiros eram repassados por bancos estatais como o BNDE (hoje BNDES), mesmo quando as operações envolviam territórios indígenas ou práticas não alinhadas à normalidade econômica do Estado.
Gastão Vidigal, nascido em 1889 em São Paulo, descendia de famílias influentes do Nordeste brasileiro e era casado com Maria Amélia Pontes Bueno, herdeira de um dos núcleos mais tradicionais de São Paulo. Documentos jornalísticos do século XIX localizados em Sergipe confirmam práticas escravistas entre os antepassados dos Vidigal, como anúncios de compra de escravos publicados por Antônio Pedro Vidigal, bisavô de Gastão Eduardo de Bueno Vidigal.
Em outro episódio, o jornal O Libertador, também de Sergipe, noticiou em 1882 a tentativa de uma mulher em adquirir a liberdade da própria filha e neto. O valor estabelecido para a transação foi majorado em 33% por avaliadores, entre eles um membro da família Vidigal, alegando que a operação resultaria em alforria.
Pelo lado materno, os Bueno também têm histórico de exploração escravista. Documentos apontam Augusto Xavier Bueno de Andrade, avô de Maria Amélia, oferecendo uma fazenda de café com 75 pessoas escravizadas como garantia de empréstimo junto ao Banco do Brasil.
Atualmente, o nome Gastão Vidigal identifica diversos logradouros públicos, como avenidas, ruas, praças e até uma cidade no interior paulista, além de um aeroporto.
Segundo o professor José Marciano Monteiro, da Universidade Federal de Campina Grande, essas denominações mantidas por elites funcionam como lugares de memória e capital simbólico, perpetuando desigualdades históricas.
“As disputas políticas não se dão tão somente entre os vivos. Elas também se dão entre os mortos, quando se disputam as memórias. Isso alimenta o capital simbólico. Imaginemos o que é você chegar em determinado lugar e dizer assim: esta avenida é em homenagem ao meu bisavô. Isto aciona toda uma rede de contatos, de prestígio, de status do ponto de vista do imaginário e, do ponto de vista da representação que é totalmente diferente do sujeito que vai disputar e ele não tem referências”, explica Marciano Monteiro.
Ele destaca que, ao contrário, os descendentes de pessoas escravizadas tiveram sua memória historicamente apagada, dificultando o acesso a referências e reconstrução de laços familiares.
A empresa Cobrasma encerrou suas atividades industriais em 1998. Gastão Eduardo de Bueno Vidigal, que presidia o Banco Mercantil, faleceu em 2001 com 82 anos. Em 2019, a família voltou à mídia após o Banco Paulista, fundado em 1990 por Álvaro Augusto Vidigal, sobrinho de Gastão Vidigal, ser investigado pela Operação Lava Jato sob acusação de lavagem de 48 milhões de reais para a Odebrecht.
Procurada, a assessoria de imprensa do Banco Paulista informou que o presidente do banco, Guti Vidigal, não é herdeiro direto do financiador da Operação Bandeirantes nem tem vínculos com a Cobrasma. Foram enviados questionamentos à direção da Cobrasma e a Luís Eulálio Vidigal sobre o histórico familiar, a ocupação da fábrica pelo Exército em 1968, o crescimento durante a ditadura militar e o fechamento da empresa a partir da reabertura democrática, mas não houve resposta para nenhuma dessas questões.