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Crise no BRB gera insegurança e ameaça projetos de expansão

Operação policial e fraudes no BRB impactam funcionários, clientes e projetos estratégicos, com risco de privatização e cobrança por transparência.

16/04/2026 às 20:21
Por: Redação

A deflagração da Operação Compliance Zero pela Polícia Federal, em novembro de 2025, ao revelar um esquema de fraudes financeiras envolvendo o Banco de Brasília (BRB) e o Banco Master, abalou profundamente a confiança, considerada o principal patrimônio do BRB, instituição pública do Distrito Federal. Esse episódio tem provocado reflexos intensos no dia a dia dos quase 5 mil funcionários do banco, abrangendo desde concursados até terceirizados e estagiários.

 

De acordo com Daniel Oliveira, diretor do Sindicato dos Bancários do Distrito Federal e funcionário concursado do BRB desde 2008, a conjuntura atual resulta de uma decisão política, cujos custos estão recaindo sobre a sociedade e os trabalhadores. Oliveira afirma que, após o início das investigações sobre as negociações com o Banco Master, diversas áreas do banco passaram a enfrentar um ambiente de trabalho mais tenso e estressante, sobretudo entre os analistas que tiveram contato direto com as operações investigadas e que agora precisam prestar esclarecimentos à Polícia Federal e a auditores.

 

Essas negociações envolviam a aquisição de bilhões de reais em créditos do banco de Daniel Vorcaro, preso desde o início de março de 2026, e culminaram com o anúncio da intenção do BRB de comprar parte do Master por dois bilhões de reais. No entanto, a transação foi posteriormente rejeitada pelo Banco Central, que, dois meses depois, decretou a liquidação extrajudicial do Banco Master e deu início à operação policial que aprofundou a crise institucional do BRB, fundada em 1964.

 

A operação resultou ainda no afastamento judicial do então presidente do BRB, Paulo Henrique Costa (PHC), sob suspeita de participação em irregularidades financeiras, o que intensificou a procura dos clientes por informações sobre eventuais riscos envolvendo seus investimentos e a solidez do banco. Os funcionários, por sua vez, passaram a desempenhar papel fundamental ao tranquilizar correntistas, muitos dos quais buscavam resgatar suas aplicações.

 

Apesar disso, os próprios trabalhadores se mostram apreensivos diante da falta de respostas claras sobre o futuro da instituição. Oliveira relata que, entre os funcionários, o sentimento oscila entre indignação e apatia, especialmente porque alguns apontaram suspeitas nas negociações com o Master antes de a Polícia Federal tornar o caso público. Ele relembra que o sindicato chegou a denunciar a primeira compra e venda de carteira de créditos envolvendo o Master ao Banco Central e à Comissão de Valores Mobiliários, em novembro de 2024, por entender que a operação seria prejudicial ao BRB.

 

“Nossos empregos também estão em jogo. Somos cobrados a dar satisfações sobre fatos que escapam da nossa alçada. Quem atende ao público tem que estar o tempo todo atento ao noticiário para poder transmitir informações que, a nosso ver, são de responsabilidade do banco e do GDF”, ponderou Oliveira.


 

Além dos funcionários ativos, cerca de 3 mil aposentados do BRB, cujos planos de saúde e previdência complementar dependem da estabilidade financeira do banco, também estão preocupados. A Previdência BRB, responsável por esses planos, afirma possuir mais de 4,39 bilhões de reais em patrimônio, separado dos recursos das empresas do conglomerado, garantindo autonomia e independência na gestão, conforme comunicado em seu site.

 

O BRB, com mais de 60 anos de atuação, administra atualmente mais de 80 bilhões de reais em ativos pertencentes a mais de 10 milhões de clientes. A instituição declara que dispõe de recursos para absorver eventuais prejuízos com aportes de curto prazo. Essa mensagem, no entanto, convive com um clima de incerteza, agravado pela demora em apresentar soluções definitivas para a crise, o que, segundo Oliveira, pode gerar impactos mais severos do que o prejuízo financeiro em si, ao assustar investidores e o mercado. A agência de classificação Moody’s, por exemplo, rebaixou a nota do banco, citando a falta de clareza sobre o impacto da compra de ativos do Master e a ausência de um plano concreto de recuperação. Para a agência, será necessária uma injeção substancial de capital para que o BRB consiga cumprir seus compromissos.

 

De forma institucional, o BRB tem se pronunciado apenas por meio de comunicados oficiais e avisos obrigatórios, evitando declarações públicas de seus dirigentes e orientando os funcionários a não conceder entrevistas. Paralelamente, lançou uma campanha digital para afirmar sua estabilidade e funcionamento regular. Recentemente, o novo presidente do BRB, Nelson de Souza, que assumiu após o afastamento de PHC, frustrou expectativas de deputados distritais ao não comparecer a uma reunião na Comissão de Constituição e Justiça da Assembleia Legislativa do Distrito Federal, alegando que só se manifestaria após a conclusão das auditorias contratadas pelo banco e a análise do balanço contábil de 2025.

 

A ausência de explicações diretas do presidente irritou os parlamentares, que decidiram convocá-lo formalmente para depor. O presidente da comissão, Thiago Manzoni, declarou que o não comparecimento, diante da gravidade dos fatos, representa um desrespeito à comissão e à população do Distrito Federal, destacando o direito dos cidadãos à informação sobre a real situação do banco.

 

Oliveira, do Sindicato dos Bancários, avalia que a repercussão negativa do caso na imprensa fortalece discursos favoráveis à privatização do BRB e pode resultar na venda de ativos a grandes instituições financeiras por valores abaixo do mercado. Ele observa que a frequência de notícias sobre o banco sustenta essa narrativa e pode beneficiar bancos interessados em adquirir ativos do BRB, além das contas de governos e empresas públicas mantidas na instituição.

 

Impactos na expansão e operações do banco

 

O cenário de crise levou à paralisação de projetos estratégicos do BRB, como a expansão para outras unidades da federação, que estava em andamento desde a gestão de PHC. Essa pausa gerou frustração entre funcionários que planejavam transferências para outros estados e cerca de 400 aprovados no concurso de 2022, cuja convocação ficou condicionada à resolução da crise. O banco havia inaugurado agências em diversos estados, como Bahia, Goiás, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais, Rio de Janeiro e São Paulo, além de instalar correspondentes bancários em outros locais, com destaque para a conquista da gestão da folha de pagamentos de servidores públicos em cidades como João Pessoa, na Paraíba. O investimento em marketing incluiu patrocínios esportivos e a criação do banco digital Nação BRB Fla, em parceria com o Flamengo, que já ultrapassa 4 milhões de clientes. Contudo, o avanço do projeto foi interrompido após a operação policial de novembro de 2025.

 

Na segunda-feira, 13 de abril, a governadora Celina Leão, que assumiu o governo após a saída de Ibaneis Rocha em março de 2026 para disputar uma vaga no Senado, declarou que a diretoria do BRB avalia a possibilidade de fechar agências em outras regiões do país. Ela ressaltou que a decisão caberá à administração do banco e que, independentemente do resultado, o BRB deve retomar seu perfil de banco regional, voltando o foco para o atendimento e oferta de crédito no Distrito Federal.

 

A governadora reafirmou que o banco público não corre risco de quebra e possui condições de cumprir os compromissos firmados com o Banco Central. Em reunião realizada na semana anterior com o presidente do BC, Gabriel Galípolo, em São Paulo, Celina Leão garantiu que uma solução para a crise será apresentada em até 30 dias. Daniel Oliveira, no entanto, critica o prazo, argumentando que as dificuldades tendem a se agravar caso não haja uma decisão rápida e aporte financeiro imediato, imprescindível para a capitalização e recuperação da credibilidade do BRB. Ele sustenta que cabe ao GDF garantir os meios para que o banco mantenha o controle público distrital e siga promovendo políticas públicas e programas sociais, como os cartões Gás, Creche e Material Escolar, além do sistema BRB Mobilidade, presente no transporte coletivo do Distrito Federal.

 

Preocupação com transparência e consequências no mercado

 

Para César Bergo, economista e professor da Universidade de Brasília (UnB), a ausência do balanço de 2025 e de outros documentos contábeis oficiais agrava a crise de confiança no BRB, deixando o banco sujeito a multas diárias superiores a 50 mil reais, impostas tanto pelo Banco Central quanto pela Comissão de Valores Mobiliários. Ele destaca que a falta de transparência, essencial ao setor financeiro, gera insegurança entre correntistas e investidores e pode afetar todo o sistema financeiro nacional.

 

Bergo defende que o Banco Central e a CVM tomem medidas mais rigorosas diante da situação e critica a demora na realização de assembleias para análise das contas de 2025 e eleição dos novos membros dos conselhos, evento que está previsto para o dia 30 de abril de 2026.

 

“O BRB foi alvo de um golpe que lançou o banco em uma crise não só financeira, mas, principalmente, de reputação. E nem os nomes dos dirigentes que estão falando pelo banco foram aprovados pela assembleia? A crise é de confiança e [fontes do GDF] divulgam à imprensa números que não batem, contas que não fecham, de uma maneira que nenhum acionista, economista ou contador entende?”, questionou o economista.


 

Possíveis caminhos para superação da crise

 

Bergo aponta quatro alternativas principais para enfrentar a situação do BRB. A primeira, considerada a mais importante, seria a capitalização do banco por meio de aporte de recursos financeiros dos sócios, especialmente do GDF, utilizando verbas públicas. Uma segunda possibilidade seria o BRB contrair empréstimos junto ao Fundo Garantidor de Créditos (FGC) ou a outros bancos, o que permitiria reforçar o capital, mas com o custo de juros elevados. Outra solução ventilada é a federalização, com o banco sendo absorvido por uma instituição pública federal, como ocorreu com o Banco do Estado de Santa Catarina (Besc) em 2008, cenário que Bergo considera improvável devido à relutância do governo federal em assumir um problema do GDF. A quarta alternativa seria a privatização do banco.

 

“A federalização eu não creio que o Palácio do Planalto queira fazer, pois implicaria levar para o âmbito federal um problema que é do GDF. De qualquer forma, seja lá qual for a solução, duas coisas são certas: uma é que salvar o BRB é melhor que deixá-lo quebrar. Outra, é que qualquer que seja a decisão, ela deve ser anunciada rapidamente”, finalizou Bergo.


 

O BRB, procurado para se manifestar sobre os acontecimentos e apresentar informações adicionais, não respondeu até o fechamento da reportagem. Também não foi possível contato com a defesa de Paulo Henrique Costa, ex-presidente do banco. A governadora Celina Leão, em nota, comentou a prisão preventiva de PHC, esclarecendo que os fatos relacionados ao ex-presidente estão sob avaliação do Poder Judiciário, sendo de competência da Justiça a devida apuração e julgamento. Celina destacou ainda que todas as providências necessárias foram tomadas, com plena colaboração junto às autoridades competentes.

 

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