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Anvisa debate regulação para canetas emagrecedoras em meio a riscos de uso irregular

Anvisa e conselhos de saúde buscam coibir mercado ilegal e garantir segurança de pacientes com medicamentos para obesidade e diabetes.

26/04/2026 às 13:42
Por: Redação

A diretoria colegiada da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) está em discussão esta semana sobre uma proposta de instrução normativa que estabelece procedimentos e requisitos técnicos para medicamentos da classe dos agonistas do receptor GLP-1. Esses fármacos são popularmente conhecidos como canetas emagrecedoras.

 

A crescente popularidade desses produtos, que incluem princípios ativos como semaglutida, tirzepatida e liraglutida, impulsionou um aumento no uso indiscriminado e no comércio ilegal. Atualmente, a aquisição dessas medicações é permitida somente com receita médica.

 

Diante dos potenciais riscos à saúde pública, a Anvisa tem implementado diversas ações para combater o mercado ilegal, que inclui a comercialização de versões manipuladas sem a devida autorização. A agência também instituiu grupos de trabalho dedicados a fortalecer sua atuação no controle sanitário e a assegurar a segurança dos pacientes.

 

Ainda neste mês, a Anvisa, em conjunto com o Conselho Federal de Medicina (CFM), o Conselho Federal de Odontologia (CFO) e o Conselho Federal de Farmácia (CFF), assinaram uma carta de intenção. O objetivo é fomentar o uso prudente e seguro das canetas emagrecedoras, prevenindo riscos sanitários decorrentes de produtos e práticas ilegais e protegendo a saúde dos cidadãos brasileiros.

 

“A Anvisa e os conselhos propõem uma atuação conjunta baseada em troca de informações, no alinhamento técnico e em ações educativas”, informou a agência.


Em uma entrevista concedida à Agência Brasil, Neuton Dornelas, presidente da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (Sbem), classificou o emprego das canetas emagrecedoras no tratamento da obesidade e do diabetes como uma verdadeira revolução. Contudo, ele manifestou preocupação com o uso descontrolado desses medicamentos.

 

“São medicamentos muito bons, eficazes, potentes, que abriram realmente um grande horizonte para o tratamento, sobretudo para pessoas que vivem com obesidade. São medicamentos que revolucionaram sob essa perspectiva. Tudo o que a gente já teve pra tratar obesidade tinha resultado menos potente, menos eficaz e eu diria até menos seguro.”


Dornelas acrescentou que, para indivíduos com doenças crônicas, a promessa de um tratamento eficaz e de longo prazo trouxe uma nova perspectiva. Ele enfatizou que esses medicamentos são cruciais, não apenas para a perda de peso e o controle glicêmico, mas principalmente para a redução do risco cardiovascular.

 

O presidente da Sbem também fez menção a um levantamento recente da Anvisa, que apontou uma discrepância entre a importação de insumos farmacêuticos para a manipulação de canetas emagrecedoras e a demanda do mercado nacional. Conforme os dados, no segundo semestre de 2025, foram importados mais de 100 quilos de insumos, o suficiente para a produção de aproximadamente 20 milhões de doses.

 

Ele ressaltou ainda que, além do volume de insumos, 1,3 milhão de medicamentos foram apreendidos por irregularidades no transporte ou armazenamento.

 

“Isso é estarrecedor. É assustador. A Sbem já vem alertando há muito tempo sobre isso. Para que as pessoas não consumam medicamentos de fontes que não são legais, medicamentos que não são registrados. Isso é altamente preocupante. Além disso, ter uma medicação que é aprovada para duas doenças crônicas, diabetes e obesidade, e as pessoas usarem de maneira indiscriminada realmente é condenatório.”


 

Medidas de Controle e Proposta de Bloqueio

 

Dornelas afirmou seu apoio, junto a outras entidades, à medida da Anvisa que exige a retenção das receitas de canetas emagrecedoras por farmácias e drogarias desde junho do ano passado. Ele atribuiu o “consumo desenfreado” ao “mercado paralelo”.

 

“Hoje, diante desse boom, desse exagero que estamos vendo, talvez valesse a pena a Anvisa bloquear por três meses, por seis meses ou até por um ano qualquer manipulação de qualquer uma dessas drogas injetáveis para o tratamento da obesidade”, defendeu.


Ele argumentou que a agência não possui estrutura suficiente para fiscalizar um volume de 20 milhões de doses. Por isso, em um cenário tão crítico, ele defende um bloqueio temporário da manipulação até que medidas mais adequadas possam ser implementadas.

 

 

Mecanismos de Ação e Riscos à Saúde

 

Ao abordar os benefícios das canetas emagrecedoras para pacientes com obesidade e diabetes, o médico detalhou que esses medicamentos operam por meio de três mecanismos principais: auxiliam no controle da glicose, retardam o esvaziamento gástrico, prolongando a sensação de saciedade, e agem no cérebro, diminuindo o apetite.

 

Esses mecanismos resultam em uma menor ingestão de alimentos e, através de processos fisiológicos e interações hormonais, promovem uma perda de peso considerável. Dornelas citou que a semaglutida pode levar a uma média de 15% de perda de peso, enquanto a tirzepatida pode atingir entre 22% e 25%, com variações individuais que dependem da dose, do acompanhamento profissional e da adesão a mudanças no estilo de vida e alimentação.

 

O médico também alertou que, como todo medicamento, as canetas emagrecedoras podem causar efeitos colaterais, sendo os mais comuns náuseas, vômitos e outros sintomas gastrointestinais.

 

“Com o uso indiscriminado, comprando de fontes não seguras medicamentos não bem armazenados ou transportados, esses riscos aumentam muito”.


A Anvisa já começou a registrar efeitos adversos mais graves, como a pancreatite. Dornelas explicou que a pancreatite é uma doença infelizmente comum no Brasil, com cerca de 40 mil internações anuais, geralmente provocada por consumo excessivo de álcool ou cálculos na vesícula.

 

“Esses medicamentos, por si só, quando se faz o retardo do esvaziamento gástrico, eles promovem uma maior parada do líquido que fica dentro da vesícula biliar. E o fato desse líquido, utilizado no processo da digestão, ficar mais tempo parado dentro vesícula pode facilitar a formação de cálculos. Isso poderia aumentar o risco, para algumas pessoas, de pancreatite. Esse é o maior risco hoje.”


 

Quatro Pilares para o Uso Seguro

 

O presidente da Sbem delineou o que os profissionais de saúde denominam os quatro pilares da segurança e responsabilidade no uso de medicamentos, incluindo as canetas emagrecedoras:

  • Utilizar um produto seguro e legal, que possua registro no Brasil.
  • Obter a prescrição de um médico devidamente registrado, que realize o acompanhamento apropriado desde o diagnóstico.
  • Saber a procedência da venda, preferencialmente farmácias e drogarias que garantam uma compra segura.
  • Usar as doses corretas, seguindo rigorosamente a orientação médica, e nunca adquirir medicamentos em mercados paralelos.

 

Ele esclareceu que a ocorrência de efeitos colaterais não é universal; náuseas, por exemplo, afetam entre 30% e 40% dos usuários, mas não são esperadas em todos. Se um indivíduo utiliza a medicação e não apresenta efeitos adversos, isso é positivo e não indica ineficácia, já que 60% a 70% das pessoas não sentem nada.

 

“Mas náuseas mais intensas, vômitos e, principalmente, dor abdominal importante que não melhora – a dor é o sinal de alerta. Se há dor importante na parte superior do abdômen, temos que pensar na possibilidade, ainda que rara, de uma pancreatite. A dor é o mais preocupante”, concluiu.


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